Textos
15 - transArquitetura: um possível manifesto, por João Diniz

A contemporaneidade está plena de recursos comunicativos 
mas existe duvida se estas redes invisíveis realmente geram
novos conhecimentos, encontros, produções e conteúdos,
e se conseguem vencer a atual cultura da dispersão
e a obsolescência programada nas ideias descartáveis
que aparecem como imediatos e mediáticos bens consumo

Por outro lado o pensamento humano segue descontínuo
no labirinto dos sentidos, no divagar das horas e das esperas,
no foco multidirecional das dúvidas, vontades e ações,
e varia entre as dificuldades do ser, as possibilidades do fazer,
a brevidade das atenções, a diversidade de interesses,
e a expansão do corpo e da alma no universo intemporal

A natureza é múltipla e interativa e coloca sempre em risco,
numa restrição de vida, os seres extremamente especializados,
propondo sequencias, inter-relações e diálogos complementares,
o homem pretenso senhor desta ordem refuta o inesperado caos
mas é sempre surpreendido, em seu domínio mecânico e frágil,
pelas catástrofes do pulsar geográfico ou da crença exacerbada

Mas existem os agentes do avanço na observação do inesperado,
na tradução dos opostos, no risco do pensamento e do gesto,
no ímpeto selvagem que propõe a variedade de disciplinas e rumos,
nas hipótese das escutas e das vozes, nas caravanas e nos retiros,
no intercambio humano e espiritual de um tempo expandido
que nunca é só presente, mas que só se realiza na ação imediata

Os temas de Leonardo se integram em minúsculos códices,
da escrita inversa ao medíocre, na polifonia de sensos e diagramas,
na integração da anatomia e da máquina, do som e da luz,
do texto e do traço, do movimento e do peso, da hélice, da roda
do prato, do guardanapo, do canhão, da ideia e do engenho,
da cidade, da ponte e do canal, da guerra, do descanso e do humor

A cultura digital propõe o novo renascimento nas ferramentas plurais
na bagagem sem peso de uma integração necessária e oculta,
no congestionamento físico dos modelos vencidos ou em agonia,
nas nuvens invisíveis dos tempos históricos e virtuais
estão as saídas sensíveis que refutam a ignorância herdada,
da apatia da dominação intolerante e dos ataques velados em raiva

A leveza ativa do pássaro se opõe à frágil pena que cai,
no vento ocasional das tendências ditadas e obedecidas,
a asa ativa busca seu foco, e flutua nas correntes da polêmica,
entando subir além das tempestades e dos ataques,
vislumbrando a autonomia e limite do vôo, nos seus mapas mentais,
local e momento do pouso e acolhida do desconhecido, ou não

A arquitetura do homem une arqui/arte à tectura/tessitura
Ideia e fazer, projeto e matéria, pedra e arco, parede e espaço,
na indisciplina do sonho há o rigor variável das metas,
no vácuo indefinido do nada pode estar a síntese do lugar,
a mão cuidadosa tenta seu papel ao buscar o traço que une
o tempo inexistente ao significado da imagem e da palavra

Pelas proposições cordiais da provocação e dos idiomas
estão os transversos passos das esquinas, das praças, das festas,
os sensos vários do corpo e da alma conduzem as matérias
da viagem e da chegada no roteiro integrado das culturas,
dos valores ambientais, das viabilidades econômicas imaginadas,
e dos respeitos sociais que devem sustentar os dias que passam

A idade durável do cosmos pode transpassar os atores breves
nas décadas transcorridas, na existência transposta em artes,
transparentes ou intransigentes, transmitidas ou intrometidas
transportadas ou atravessadas, em transes ou em trancas
em trapos ou em tranças, mas sempre através da trama
do espírito trans, aberto, curioso, aprendiz, atento e sereno

A transArquitetura é o local onipresente da experimentação,
o plano de cada ser em função das próprias e gerais demandas,
uma maneira individual e coletiva de ter tempo e ser tido por ele,
de construir na existência todas possibilidade frente às barreiras,
de fazer uma história engenhada nas poéticas do espanto,
alimento para os sujeitos sempre iniciantes em sua experiência

Na transArquitetura o desconhecer não é barreira mas caminho,
o saber não é estilo mas maneira de sempre renovar o olhar,
a profissão não é limite mas a forma de reinventar vocações,
o instante é uma paixão provocante que deve ser sempre conquistada,
no espaço que nasce na mente presente, observante e agente,
todos são diversos, unidos, sensíveis, possíveis, na transArquitetura.

Joao Diniz, nov. 2012 / desenho: Leonardo da Vinci



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